Frei João de Mansilha

João de Mansilha

Filho de Francisco Pereira Pinto e de Feliciana de Mansilha, de Santa Marta, nasceu neste lugar da freguesia de Lobrigos (S. Miguel), no dia 18 de Maio de 1711. Foi batizado na igreja desta paróquia pelo cura André Pinto Barbosa, sendo seus padrinhos o padre Manuel de Figueiredo de Sanhoane e Isabel Mansilha, do lugar do Urval (Sever). Seguindo a carreira eclesiástica, entrou na Ordem dos Frades Dominicanos, onde professou; estudou teologia em Coimbra e foi lente de prima no Convento de São Domingos do Porto.

     Filho de proprietários e conhecedor da realidade e dificuldades da viticultura, foi Frei João de Mansilha quem apresentou ao rei D. José e ao Marquês de Pombal as propostas dos grandes proprietários do Alto Douro para debelar a crise dos vinhos da região. Propostas aceites e que ficaram consignadas no Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756, que criou a Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e aprovou os seus Estatutos (redigidos aliás pelo próprio Frei Mansilha):

    «Ouvi naquelle tempo (…) que o Padre Frey Mansilha viera propor a Sebastião Jozé de Carvalho, o qual depois de o examinar cuidadosamente, e conhecer a sua utilidade, formalisou sobre elle a lei da creação, e estatutos da companhia, por cujo motivo ficou o dito Padre em Lisboa, feito Procurador da companhia em quanto vivo. Era homem vivo, e ambicioso de representação; e por aquelle seu cargo teve sempre entrada franca em casa do Ministro…» (Jácome Ratton).

       O Marquês de Pombal nomeou Frei Mansilha para importantes cargos dentro e fora da Companhia: Inquisidor do Tribunal do Santo Ofício de Lisboa (1761), deputado do Conselho Geral (1773), e Conselheiro do Rei (1774), e deu-lhe também, entre 1756 e 1777, a representação em Lisboa da Companhia, o que o consagrava, depois do próprio Marquês, como o “homem forte”, que tudo punha e dispunha na vida e ação da mesma.

      Durante o seu ministério, foi um interveniente decisivo tanto na fundação da instituição, quanto na obtenção de favores régios que vieram ampliar o âmbito de atuação da empresa e dilatar os seus privilégios. Foi ele “voluntarioso e astuto” que redigiu a lista da primeira Mesa da Companhia, feita, como conta um testemunho da época, «da letra do dito Padre Mestre».

     Frei João vinha, assim, logo a seguir a Pombal na influência politica sobre a Companhia. E para se aquilatar como os dois eram próximos e “unha com carne”, o frade, como confessor do Marquês, para além de saber dos seus muitos pecados e conhecer-lhe bem a alma, era sobretudo um acérrimo defensor dos seus interesses.

          Mansilha simpatizava abertamente com os produtores. Na sua maneira livre de falar, não poupava os negociantes ingleses do Porto, chamando-lhes «vilões vis e pérfidos» e «monstros de patifaria, vingança e inveja». E, aos negociantes portugueses que se atreviam a competir com a Companhia chamava «vis intriguistas».

      Com a morte de D. José, em 24 de Fevereiro de 1777, e a subida ao trono de D. Maria I, o Marquês de Pombal foi destituído das suas funções e desterrado, o mesmo acontecendo a Frei João de Mansilha que começou por ser encarcerado no Convento de S. Domingos, em Lisboa.

      Por decreto de 10 de Setembro de 1778 de D. Maria I, por via dos «escandalosos e indignos procedimentos com que, em todo o tempo, se tinha conduzido», Frei João de Mansilha era inabilitado, recluso, e por fim, desterrado por toda a vida, para o Convento de Nossa Senhora da Luz, em Pedrógão Grande, onde morreu no dia de Natal de 1780.

    Mas «fossem ou não fossem escandalosos e indignos os seus actos e costumes, do que nos não resta dúvida, é de que foi Frei João de Mansilha a cabeça e o braço dirigentes que arrancaram o Alto Douro ao abandono e à fome, na hora de uma das maiores crises da sua história – sendo obra sua o Alvará de vida nova … que fez do Alto Douro a ressurreição posterior a 1756». (citação feita por Carlos Jaca, in «Pombal e a Companhia do Alto Douro»).